Uma escola não é boa porque não reprova. A
escola é boa quando todos os alunos aprendem e, por isso, nem precisa
haver reprovações.
De fato, a reprovação é hoje muito
questionada. Afinal, fazer os estudantes repetirem o ano inteiro para
ver os mesmos conteúdos outra vez é uma solução ultrapassada, cômoda,
cara e ineficiente. Países com alta qualidade de ensino encontraram
alternativas que funcionam melhor e de forma preventiva, como, por
exemplo, aulas de reforço ao longo do ano. Na Finlândia, os professores
são orientados a dedicar mais tempo aos alunos que têm mais
dificuldades. Resultado: a taxa de reprovação é de 2% e o índice de
conclusão da educação básica é de 99,7%. Em Hong Kong, quando um
professor tem mais de 3% dos alunos com baixo desempenho, uma comissão
vai avaliar o trabalho do docente.
Já o Brasil é um dos países
que mais reprovam. No ensino médio o índice chega a 13,1%. São quase 3
bilhões de dólares/ano gastos além do necessário, só nos anos finais da
escolaridade. O pior é que, como mostram as pesquisas qualitativas e
quantitativas, há grande relação entre repetência e evasão.
Não é à toa que o
estudo recém-divulgado pelo Todos pela Educação
mostra que apenas 54% dos jovens brasileiros conseguem concluir o
ensino médio até os 19 anos. Dos jovens entre 15 e 17 anos, um a cada
cinco ainda está no ensino fundamental, acumulando reprovações. E 15,7%
abandonaram o estudo, certamente depois de experiências de fracasso
escolar.
Da constatação de que reprovar não resolve nossos
problemas, a tomar a decisão de implementar um sistema de progressão
continuada, sem as devidas melhorias na rede de ensino, o salto é
arriscado demais. E o que é grave: muitos estados e municípios confundem
esse conceito com o de “aprovação automática”. Na aprovação automática,
se o aluno aprendeu, vai para a série seguinte; se não aprendeu, vai
também. Consequência: o caos. Já a progressão continuada é um conceito
diferente, constitui um alargamento dos ciclos escolares.
Trocando
em miúdos: as escolas estruturam os períodos de aprendizagem em etapas
de um ano, ou 200 dias letivos. Ora, certas competências podem levar
mais tempo para se desenvolver, e poderíamos organizar essa “trilha de
aprendizagem” em períodos diferentes. Percebe-se que a divisão das
etapas de desenvolvimento em 12 meses é arbitrária e poderíamos usar
outras medidas, como 24 ou 36 meses, por exemplo, dependendo do
planejamento.
Na escola da sociedade industrial, entendida como
fábrica, os “produtos” com defeito são mandados de volta para o início
da linha de produção ou descartados. Já a progressão continuada parte do
princípio de que a escola não produz pessoas “em série” e o trabalho
deve ser personalizado. Baseia-se no princípio de que todos os alunos
são capazes de aprender, mas têm ritmos diferentes. Assim, é injusto
interromper os percursos em dezembro e exigir que alguns recomecem do
zero, como se não tivesse havido nenhuma evolução. Quando bem aplicada,
essa lógica ajuda a criança a manter-se na escola e não desistir.
Se,
em si, a progressão continuada pode ser uma alternativa, por que os
indicadores do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)
continuam baixos mesmo nas redes que a adotaram?
Primeiro, porque
há descontinuidade entre os professores das diversas séries. Alguns
reclamam que o aluno “chegou sem base”, o que indica a falta de um
trabalho integrado. Os registros das lacunas de aprendizagem dos
estudantes inexistem ou são falhos. Faltam processos de avaliação
continuada para conhecer os problemas e definir novas estratégias
didáticas.
Além disso, as famílias não compreendem como isso
funciona. Alguns pais procuram a escola e reclamam que a criança passou
“sem saber nada”. Os professores não têm suficiente preparação para as
novas práticas e, com frequência, não concordam com o modo como o
sistema é implantado – até porque, não raro, são constrangidos a aprovar
os estudantes compulsoriamente.
Ainda assim, a progressão
continuada poderia funcionar melhor. Para começar, os professores
precisam acreditar no modelo; para tanto, deveriam ser convidados a
participar de sua construção e das mudanças que implica. É decisivo
envolver as famílias, sobretudo no caso do ensino fundamental,
capacitando-as para participar da vida escolar e reforçar o trabalho em
casa. Os alunos devem ser acompanhados com registros cuidadosos, a
partir de avaliações permanentes, que detectem lacunas e necessidades de
correção. Há que desenhar um plano de reforço específico para alunos
com mais dificuldades.
Sem isso, o problema vira uma bola de
neve. O aluno vai sendo jogado para a etapa seguinte sem saber a matéria
e depois a escola não sabe muito bem o que fazer com ele, porque formou
um analfabeto funcional.
A fragilidade do modelo aparece no
Ideb, que cruza números de aprovação com desempenho. Não adianta ter
todos os estudantes nos anos finais da escola, se eles não conseguem
responder às questões das provas. É isso o que vem acontecendo nas
últimas medições: alta aprovação, mas baixo rendimento.